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A atividade e a escolha

Atividade proposta para a terceira e última nota da disciplina de jornalismo literário.

Foi solicitado que escolhêssemos entre reportagem temática, retrato/perfil e ensaio pessoal.  Com o intuito de diversificar e me desafiar optei pelo ensaio, pois é um gênero que informa com um toque pessoal, porém fundamentado. Desafio aceito pela importância e delicadeza do tema e que me fez dar um salto como estudante de jornalismo, um curso que exige versatilidade, ousadia e coragem!

Mas você nem é tão preta assim

 

Selva de pedras. Bem clichê, bem normal, bem São Paulo. Ela é isso mesmo. Todos os clichês cabem. Onde simultaneamente, quase que instantaneamente, me senti acolhida e desacolhida. Em mais um dia de trabalho, em um episódio que agora os detalhes não recordo com precisão - são mais de seis anos - porém, um gesto em particular, gravei. Não costumo prestar muita atenção nas minúcias no exato momento que me fisgam. Só me dou conta quando elas martelam. Stephanie olhou para mim e com seu braço esquerdo cruzado em frente ao seu peito, sugeriu um cumprimento da minha parte. Segui aquele código, e com meu braço direito retribui. Ela arremata: “manas, pretinhas”.

 

Estranhei. Estranhei pelo o que escutei e pela forma que ela me via. Porque...eu não me enxergava daquela forma. Eu sabia que algo me atravessava relacionada às questões de raça. Porém, como a boa polêmica que gira em torno dos pardos, nem tudo me atingia de forma contundente. Cresci com “para, você não é tão preta assim”, embora soubesse que não tirava a bolsa de perto de mim para não ser confundida com vendedora, mesmo com milhares de pessoas ao meu redor, ou perceber que as mesmas vendedoras nem me davam muita bola quando entrava nas lojas com a amiga loira. Pensava comigo, “ elas nem imaginam o quanto minha amiga é econômica”. Ria litros internamente. Situações que passava e ainda assim, quando Stephanie me cumprimentou com o gesto de um ritual quase que tribal, quis segurar a ficha para ela não cair. 

Passaram-se anos. A volta e a rotina restabelecida em Teresina, e o pulsar de um assunto que fui levando, afinal, foi no Piauí que cresci e me estabeleci com sou, ou como era. Lugar ideal e perfeito para o conforto, ou o não confronto. Ai jesus, como bem prega a psicanálise sobre impulsos, o assunto veio me cobrar. Com quem conversar? Nas minhas tímidas incursões lembrei de uma moça, negra, que faz divulgação de literatura negra nas redes sociais. Era a vivência dela, a vida dela. Será que ela iria me entender? Ouso dizer que o pardo está no limbo. Ele existe como o ser que não está nem lá e nem cá. Para a minha surpresa, há uma tese que fala sobre famílias inter-raciais. Eu não estava tão equivocada assim. A blogueira me indicou “Famílias inter-raciais - tensões entre cor e amor'', da Lia Vainer Schucman. 

Me senti finalmente autorizada a pensar como pensava e a ser como era. Não imaginava que tinha até literatura a respeito. Para Schucman, melhor para sua pesquisa, há inúmeras situações de negação quanto se tratam de famílias inter-raciais, sendo mais justa, situações de confusão. Pessoas conscientes de privilégios econômicos e sociais; soma-se a isso o fato de não serem retintas e claro, por não terem vivenciado situações explícitas de exclusão. Como no meu caso, deduções por situações não comuns a pessoas brancas. Muitas vezes não ouso me intitular preta por achar que estou me metendo no lugar de alguém que precisa de maior visibilidade, afinal, não sou tão preta assim. Para de reclamar!

Ao entrar em contato novamente com a temática através do livro, basta abrir aleatoriamente em qualquer página para se deparar com situações de indefinição quanto a raça, como no caso de Amanda, da família Soares. Nossas histórias se cruzam em apenas alguns pontos, visto que reconheço certas vivências que ela relata não ter passado. Mas uma fala ressoa em mim com bastante força: “eu tenho este receio de me declarar como negra e de repente as meninas do movimento: ‘ah, você é negra? As pessoas falam para você alisar o teu cabelo?”. No entanto, segundo o livro,  Amanda não tem dúvidas em dizer que se sente emocionalmente identificada com o ser negro e à negritude. Assim sou eu, vivencio, me identifico, me fortaleço, me pareço mas não sei se o suficiente. Me calo. Mas me lembro de Stephanie. 

Por muitos anos, fiz o movimento de alisar a parte frontal do meu cabelo na intenção apenas de me enquadrar no modelo de uma época. Me convenci que era pela praticidade, embora aquilo fizesse com que eu ficasse pelo menos  trinta minutos na frente do espelho. A prática fazia com que mais mechas do cabelo fossem somadas ao movimento do estica e puxa. Visualmente limpo. O volume controlado. Foi um ato impensado o abandono dos cachos. Eram 20 anos de idade e todo mundo estava fazendo, ora bolas. Não percebia, mas estava absorvendo um tempo em que as políticas afirmativas de 1996 do governo Fernando Henrique Cardoso não me alcançavam. Os movimentos sociais conseguiram fazer frente e o que antes era uma política de integração, tornava-se políticas de identidade. Reconhecer e valorizar a identidade negra através da valorização da beleza negra era o almejado. 

Da idealização e execução de políticas afirmativas até meu gatilho foram 13 anos. É lento. Ainda nem olhava para revistas voltadas ao público negro/preto. Só aos 36 anos, com os cabelos devidamente descoloridos e alisados fui  - imbuída pelos tempos - a pensar nas possibilidades dos cachos. Eram muitas pessoas falando. Recordo até de um meme sobre uma mulher branca reclamando que nas gôndolas do supermercado já não encontrava produtos para cabelos lisos.

 

Achei graça. Mas sem despertar ainda. Os meus cabelos com a raiz alisada eram “práticos”. Logo, veio um outro incômodo. Em uma sessão para alisar a raiz do cabelo e na companhia de uma amiga, ela , sem qualquer embaraço, caçoava do cabelo de uma das cabeleireiras por ter assumido o black power. Ela achou inconcebível. Eu achei corajoso, mas ignorei a troça. Internamente, pra mim, ela, por estar mais próxima dos modelos europeus, não tinha sido confrontada. Em minha clara “passada de pano”, não me aborreci, pois nem eu mesma tinha uma opinião claramente formada.

Coragem. Esse ainda não era o verbo que eu precisava. Não é uma questão de coragem, era de individualidade, de desconstrução, de simplesmente ser. E como menciona Amanda Braga, “os difusos conceitos de beleza negra produzidos atualmente estão em permanente diálogos e duelos”. Em mim estavam. Sempre amei o volume. Sempre me achei incrivelmente bonita com volume. A profissional no salão era um sinal que algo mudava. Ela chocava uns e inspirava outros.

 

As opções de produtos aumentavam. As pulverizadas drogarias da minha cidade - em uma das suas unidades em uma avenida movimentada - exibia uma linda mulher com seu volume estonteante, e crespo. Estava, simplesmente, esteticamente linda. Constatação puramente pessoal? Ainda citando Amanda, “ nesse momento em que as identidades são fluidas e inconstantes, não seria possível, consequentemente, a perpetuação e a demarcação de um modelo de beleza único, seja branco ou negro. [...] Percebemos o que se tem, atualmente, é uma ressignificação de memórias”. 

Enxergava um novo momento em todo canto. Pesquisava, reavaliava, porém ainda tinham uns bicos tortos, e que incomodavam. Que medo era esse? Na simplicidade da rotina de uma mulher que apenas acostumou-se a seguir sem desejar grandes incômodos, ou disfarçadamente, queria praticidade. A praticidade de não ser incomodada com olhos questionadores, por não estar habituada a sair dos padrões. Mas o novo momento já citado pulsava em representatividade. A modelo da drogaria, a jornalista âncora de TV, aos cachos agora comerciáveis, as propagandas, as várias meninas, mulheres da universidade. Como não lembrar o impulso de elogiar uma desconhecida no banheiro que arrumava sua cabeleira volumosa com a seriedade de quem tem um compromisso consigo.

 

E porque não eu? São tantas mulheres em transição capilar, são tantas que encararam o visual nada uniforme e torturador dessa etapa. Assim como Bianca Santana declarou  em seu livro Quando me descobri negra, que seu  processo foi sofrido apesar do cabeleireiro incrível, então eu me perguntava se suportaria, pois muitas desistiam pelo caminho. O profissional que descolore meu cabelo me perguntou porque não assumir os cachos. Ao escutar isso, me dava conta que não lembrava mais como eram, apenas do volume que tinham. Se seguiu à segunda tentativa. Não tive muito apoio. Era solitário.O pânico dominava e não sabia se aquilo iria dar certo. Como Bianca, o volume trazia angústia e dentre tantos pequenos gestos violentos do passado, do presente, me inibia. 

Embarquei, perseguindo algo que eu mesma ainda não sabia o que era. Estranho. Gestos aparentemente banais são incorridos com o peso de anos. Logo tratava-se não apenas de um corte, como muitos diriam, e sim de remodelar padrões, relações de poder e de jogos de verdade. De onde vem essa verdade? Por fim, quando o cabelo ganhou corte, volume e forma, me vi diante e mais próxima das minhas semelhantes. Agora, ao escrever esse trecho, faço uma pausa e olho pela janela. Noite de chuva, quinta-feira amena, e pensando em como descrever o fenômeno pessoal, barulhento e também apaziguador da identidade, de amor consigo e de maior consciência do sistema silenciador. “É só um cabelo, mas você nem é tão preta assim”.  Estou mais enrolada do que nunca, mas agora em cachos.









 

REFERÊNCIAS:

BRAGA, Amanda. História da beleza negra no Brasil. Discursos, corpos e práticas. Edufscar. São Carlos, 2015.

BRAGA, Amanda B. Afros com estilo e muita raça: da linguagem do cabelo crespo na produção de identidades negras. UFPB. Disponível em: http://www.leffa.pro.br/tela4/Textos/Textos/Anais/ABRALIN_2009/PDF/Amanda%20Batista%20BRAGA.pdf

SCHUCMAN, Lia Vainer. Famílias inter-raciais. Tensões entre cor e amor. EDUFBA. Salvador, 2018.

SANTANA, Bianca. Quando me descobri negra; ilustração Mateu Velasco. São Paulo: SESI - SP editora, 2015.

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